Entrevista Robert Lustig

Endocrinologista americano lança polêmica ao culpar o consumo de doces e até sucos pela epidemia de obesidade

Açúcar é veneno. Do mais natureba, o mascavo, até o suco de fruta ou o famigerado xarope de milho, o açúcar está por trás de doenças cardíacas, diabetes e câncer.E deveria ser proibido para menores de 21 anos, como o álcool e o cigarro.

É com essas declarações polêmicas que o americano Robert Lustig, endocrinologista pediátrico da Universidade da Califórnia em San Francisco, ganhou fama internacional nos últimos anos.

Sua palestra "Açúcar: a verdade amarga" teve mais de 900 mil acessos no YouTube (tinyurl.com/ldgu9k). Há duas semanas, suas teses foram tema da reportagem de capa da revista do "New York Times". Abaixo, os principais trechos da entrevista que ele concedeu à Folha, por telefone.

Folha - O senhor defende que as pessoas eliminem totalmente o açúcar da dieta?

Robert Lustig - Não, eu não sou um "food nazi". Eu como açúcar, mas muito pouco.

Nosso corpo tem uma capacidade muito limitada para metabolizar o açúcar e nós vivemos muito acima dela. Não precisamos de frutose para viver. Nosso corpo ficaria muito bem sem nenhuma frutose [açúcar refinado, a sacarose é composta de 50% de frutose e 50% de glicose].

Qual é o máximo de frutose que deveríamos ingerir?

Não temos certeza. Mas uma estimativa é 50 g por dia. Meus estudos mostram as similaridades entre frutose e álcool. Eles são metabolizados da mesma forma, no fígado. E nós sabemos qual é o limite de toxicidade para o álcool: 50 g. A epidemia de obesidade começou quando o consumo de frutose ultrapassou os 50 g por dia [ou 100 g de açúcar, o mesmo que duas latas e meia de refrigerante].

A Associação Cardiológica Americana publicou uma orientação, em agosto de 2009, da qual eu sou coautor, dizendo que o consumo atual de açúcar nos EUA é de 22 colheres de chá por dia.

Deveríamos reduzir isso para nove colheres no caso de homens e seis no caso de mulheres.

Qualquer açúcar é ruim, não importa se é mascavo ou xarope de milho?

Todos são igualmente ruins.

Deveríamos substitui-los por adoçantes artificiais?

Adoçantes artificiais são uma questão complicada. Não fizemos todos os testes para saber o que os adoçantes fazem no organismo.

Segundo uma linha de estudos, uma vez que a língua sente o sabor doce, o cérebro se prepara para a entrada do açúcar no sangue. Se ele não entra, o cérebro fica confuso, o que pode levar a um aumento no consumo de açúcar.

Há estudos ligando o consumo de adoçantes a obesidade e doença cardíaca.

Qual a alimentação que os pais devem dar a seus filhos?

Crianças devem comer comida de verdade.

Mas isso inclui suco de fruta natural...

Não, suco de fruta, mesmo natural, não é comida de verdade. Deus fez suco de fruta? Não. Deus fez fruta. Qual é a diferença entre a fruta e o suco? Fibras. A fibra é a parte boa da fruta, e o suco, a má.

Sempre que há frutose na natureza, há muita fibra "há uma exceção, o mel, mas este é policiado pelas abelhas.

As fibras limitam a velocidade da absorção dos carboidratos e das gorduras do intestino para a corrente sanguínea. Quanto mais rápido a energia sai do intestino e vai para o fígado, maiores as chances de danificar o órgão.

Quando o senhor diz que crianças devem comer comida de verdade, isso inclui um sorvete no fim de semana?

Sim. Quando eu era pequeno, sobremesa era uma vez por semana. Hoje, é uma vez por refeição. Esse é o problema. Eu tenho duas filhas pequenas e é isso que faço. Se é dia de semana e elas querem sobremesa, ganham uma fruta. Uma bola de sorvete, só no fim de semana. Elas seguem as regras e não ficam sonhando com doces.

O senhor propõe que a venda de doces e refrigerantes seja proibida para menores, como cigarros e álcool.

Sim. Refrigerantes não têm valor nutritivo, não fazem nenhum bem às crianças. Se os pais quiserem que seus filhos tomem refrigerante, que comprem para eles.

Não é exagero comparar açúcar a álcool e cigarros?

Não. Cigarros e álcool causam dependência, e açúcar também. Nos refrigerantes, tanto a cafeína como o açúcar causam dependência. Sal e gordura causam hábito, mas não dependência.

Como o senhor explica os efeitos nocivos do açúcar?

Quatro alimentos foram associados à doença metabólica crônica: gorduras trans, aminoácidos de cadeia ramificada [soja], álcool e frutose.

A frutose, quando é metabolizada, libera substâncias tóxicas chamadas espécies reativas de oxigênio [radicais livres], que levam a danos nas células no longo prazo, envelhecimento e, potencialmente, câncer.

Patrícia Campos Mello da Folha de  São Paulo

Fonte: Jornal Folha de SP de 24/7/11

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A propósito sobre a ingestão de 50g por dia, quando li anos atrás o livro de William Duffy – Sugar Blues, recordo-me de ter lido sobre a exploração escravagista da cana de açucar pelos ingleses, e no livro dizia que açúcar era algo vendido apenas em farmácias, realmente apenas como remédio... Importante ler o artigo abaixo também. (Lena Rodriguez)

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Sugar. Açúcar [Do sãnscr. çarkara, 'grãos de areia', prácrito sakkar, atr. do ár. As-sukkar] S. m. Sacarose refinada, C12H22011 produzida pelo múltiplo processamento químico do suco de cana-de-açúcar ou da beterraba e pela remoção de toda fibra e proteína, que representam 90 por cento da planta.

Blues. Um estado de depressão ou melancolia revestido de medo, ansiedade e desconforto físico (freqüentemente expresso liricamente como uma crônica autobiográfica de um desastre pessoal).

Sugar Blues. Múltiplas penúrias físicas e mentais causada pelo consumo de sacarose refinada ― comumente chamada açúcar.

Do capítulo "Os Doces Bárbaros":

... Muitos de nós temos, hoje, hábitos de comer açúcar tão arraigados que nos é difícil imaginar a relação dos cruzados (que nunca o haviam provado), extenuados, nas terras dos infiéis, fazendo suas primeiras doces viagens.

No livro Beyond the Chindwin, Bernard Fergusson nos conta o que acontecia quando homens exaustos, ao ponto de não conseguirem ao menos falar, recebiam uma dose de calda de açúcar: "... o resultado imediato era surpreendente, como um moderno Pentecostes. Nossas línguas se desenrolavam e falávamos perfeitamente."

Uma substância capaz de provocar essa reação em musculosos adultos não deveria ser aquela oferecida como regalo de Natal às crianças. Temos aqui uma substância mais intoxicante que cerveja ou vinho e mais potente que muitas drogas e poções então conhecidas pelo homem. Não é de se estranhar que médicos árabes e judeus usassem o açúcar refinado com extremo cuidado, em minúsculas quantidades, adicionado às suas prescrições. Ele era capaz de embaralhar todo o cérebro. Poderia fazer com que o corpo e o cérebro humano subissem, de um só pulo toda a escala musical, indo da alucinação à exaustão.

Hoje os endocrinologistas podem nos dizer como isso ocorre.

A diferença entre vida e morte é, em termos químicos, menor do que a diferença entre água destilada e aquela coisa que sai pela torneira.

O cérebro é, provavelmente, o órgão mais sensível do corpo. A diferença entre sentir-se eufórico ou deprimido, são ou insano, calmo ou muito louco, inspirado ou melancólico depende, em larga escala, daquilo que você põe na boca. Para a máxima eficiência do corpo ― do qual o cérebro é apenas uma parte ― o volume de glicose no sangue deve estar em equilíbrio com o volume de oxigênio. Como observaram os Drs. E. M. Abrahamson e A. W. Pezet, no livro Body, Mind, and Sugar, "... uma condição em que o nível de açúcar no sangue seja relativamente baixa... tende a sufocar as células do corpo, especialmente as células cerebrais. Tal condição é tratada através de dieta... O que nos ocorre quando as células de nosso corpo, e especialmente de nosso cérebro, encontram-se cronicamente subnutridas? As células mais fracas, mais vulneráveis... sofrem primeiro." (O grifo é nosso.) Quando tudo vai bem este equilíbrio é mantido, com grande precisão, sob a supervisão de nossas glândulas supra-renais. Quando ingerimos o açúcar refinado (sacarose), ele está a um passo de se tomar glicose, de forma a escapar grandemente aos processos químicos de nosso corpo. A sacarose passa diretamente para os intestinos, onde toma-se glicose "pré-digerida ". Esta, por sua vez, é absorvida pelo sangue onde o nível de glicose já havia sido estabelecido, num preciso equilíbrio com o do oxigênio. Desta forma, o nível de glicose no sangue é dramaticamente elevado. O equilíbrio é rompido. O corpo entra em crise.

O cérebro é o primeiro a registrá-la. As cápsulas supra-renais expelem hormônios que conduzem todas as reservas químicas para enfrentar o açúcar: a insulina das "ilhotas" do pâncreas tem a função específica de controlar o nível de glicose no sangue, num antagonismo complementar aos hormônios supra-renais, ocupados em mantê-lo elevado. Tudo isso num clima de emergência, com resultados previstos. Indo tão rápido, tem uma atuação profunda. O nível de glicose do sangue cai bruscamente e uma segunda crise se origina da anterior. As ilhotas pancreáticas têm que fechar, o mesmo ocorrendo com alguns departamentos das cápsulas supra-renais. Outros hormônios supra-renais devem ser produzidos para regular a reversão na direção química e novamente elevar o nível de glicose do sangue.2 Tudo isso se reflete na maneira como nos sentimos. Enquanto a glicose está sendo absorvida pelo sangue, nos sentimos eufóricos. Um rápido empurrão. No entanto, essa onda de energia hipotecada é sucedida por períodos de depressão. Quando o nível de glicose do sangue cai ficamos apáticos, cansados; precisamos esforço para nos mover e até mesmo para pensar, enquanto o nível de glicose do sangue está novamente se elevando. Nosso pobre cérebro fica vulnerável a suspeições e alucinações. Podemos nos tomar irritados, nervosos, sobressaltados. A severidade da crise, no ápice de outra crise, depende da sobrecarga de glicose. Se continuamos a ingerir açúcar uma nova crise dupla está sempre começando, antes da anterior terminar. No fim do dia, a crise cumulativa poderá se tornar um desastre irreparável.

Após anos de dias como este, o resultado final é a avaria das glândulas adrenais. Elas se tornam gastas, não por trabalho excessivo, mas por contínuas surras. A produção global de hormônios é baixa, os volumes não se harmonizam. Este funcionamento irregular, desequilibrado, se reflete por todo o circuito supra-renal. O cérebro poderá, em breve, ter problemas, tomando o irreal por real; somos passíveis de enlouquecer. Quando chega o stress, ficamos em pedaços porque não mais possuímos um sistema endócrino saudável para enfrentá-lo. Nossa eficiência se esvai a cada dia, estamos sempre cansados, parece que nunca conseguimos terminar coisa alguma. Realmente contraímos o sugar blues.

Membros da classe médica que têm estudado este problema observam que, "como as células do cérebro são aquelas que dependem inteiramente do momentâneo nível de açúcar no sangue para sua nutrição, talvez sejam elas as mais suscetíveis a avarias. O número perturbadoramente grande e sempre crescente de neuróticos em nossa população deixa isso completamente evidente." Não são todas as pessoas que passam por tudo isso. Alguns, no começo, têm adrenais fortes; outros, como o finado presidente Kennedy, não. Os graus de abuso do açúcar e de sugar blues variam. No entanto, o corpo não mente. Se você come açúcar, sente as conseqüências.

O falecido endocrinologista John W. Tintera foi bastante enfático: "É perfeitamente possível melhorar sua disposição, aumentar sua eficiência e alterar para melhor a sua personalidade. A maneira de fazer isso é evitando o açúcar de cana e de beterraba sob todas as suas formas e disfarces."

INTRODUÇÃO DO LIVRO:

Sugar Blues ― originariamente nome de um lamento dos negros americanos do inicio do século e utilizado aqui, com rara propriedade, para definir toda a gama de distúrbios físicos e mentais causados pelo consumo da sacarose refinada, comumente chamada açúcar ― é um relato detalhado das circunstâncias escusas que permitiram a ascensão do açúcar da categoria de droga rara e de alto custo, como o ópio, a morfina e a heroína, a sustentáculo da dieta do homem moderno.

A história do açúcar envolve, desde o seu início, a experiência amarga de muitos em garantia da doce vida de poucos. Cultivado por mãos escravas, seu consumo limitou-se inicialmente às elites. O desenvolvimento da industrialização da cana, entretanto, prometia as perspectivas de um mercado altamente promissor: o uso do açúcar, a exemplo de outras drogas formadoras de hábito, garantia um número crescente de ansiosos consumidores.

Posteriores constatações dos inúmeros distúrbios orgânicos causados pelo consumo indiscriminado do açúcar, em especial do açúcar refinado ― o aparecimento do escoburto e do beribéri entre povos até então imunes a essas doenças e o aumento assustador de diabéticos, hipoglicêmicos e portadores de distúrbios funcionais generalizados nos grandes centros populacionais, onde a sacarose da cana já era adicionada ao preparo de praticamente todos os alimentos ―, em nada afetaram esse lucrativo comércio. Instituições com nomes enganadores como The Nutrition Foundation, Inc. ― uma organização testa-de-ferro dos interesses de cerca de 45 companhias que exploram o comércio alimentício, entre elas a American Sugar Refining Co., a Coca-cola, a Pepsi-Cola e a Curtis Candy Co. ― foram criadas e devidamente subvencionadas pelas grandes indústrias açucareiras com o objetivo de ― tarefa ingrata! ― descobrir e alardear improváveis benefícios que o açúcar causaria ao organismo humano. Bilhões de dólares foram ― e são ― gastos sistematicamente apenas para assalariar a consciência de médicos e nutricionistas e produzir conceitos enganadores do tipo "açúcar é energia".

― o açúcar refinado, constituído de 99% de sacarose, necessita, para ser metabolizado, dos seus componentes originais, tais como cálcio, ferro e vitaminas do complexo B; eliminadas no processo de refinamento, essas substâncias serão literalmente roubadas dos ossos, dos dentes e das reservas orgânicas ―

O maior sistema de comunicações que o mundo já conheceu é utilizado para mascatear venenos dissimulados em atrativas embalagens. Conhecer esses engodos publicitários pode significar a diferença entre a saúde e a doença.

Fonte

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REEDUCAÇÃO MENTE & CORPO

DESINTOXICAÇÃO – LIMPEZA – EMAGRECIMENTO

NUTRIÇÃO – REJUVENESCIMENTO

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