A oportunidade mesma não se encontra na interpretação de sintomas alheios e sim na interpretação dos próprios sintomas. Isso é dificultado pela onipresente cegueira de si mesmo. A problemática da projeção, nossa tendência de transportar tudo o que é incômodo e difícil para fora e lá também elaborá-lo e combatê-lo, prova ser prejudicial também no que se refere à interpretação dos sintomas. Ao mesmo tempo que reconhecemos claramente o cisco no olho dos outros, de bom grado deixamos de ver a trave que temos no nosso. A experiência com A Doença como Caminho resultou em um padrão notável. Às interpretações de sintomas verbalizadas por amigos e conhecidos contrapõe-se um grande "Mas" no que se refere aos próprios sintomas. O que tinha funcionado de maneira tão convincente com os parceiros ou sogros, de repente falhava.

Interpretar os sintomas da doença é trabalhar nas sombras e, justamente por essa razão, freqüentemente desagradável. Pode-se inclusive concluir a partir disso que as interpretações orais tropeçam na recusa espontânea. Se uma interpretação de repente parece agradável, ela ou não é correta ou, de qualquer forma, não é suficientemente profunda. Nesse caso, o mais simples é aprender com os sintomas alheios e então aplicar esses conhecimentos em si mesmo. O conceito somente adquire sentido como conseqüência desse difícil passo. Mas então ele transforma-se em um verdadeiro caminho de auto conhecimento e auto realização.

Em relação a outros sistemas de interpretação, especialmente do âmbito esotérico, o simbolismo dos sintomas tem a vantagem de não deixar praticamente qualquer margem para mal entendidos quanto à área afetada. O risco de interpretar uma úlcera do estômago como sendo um sinal de um iminente processo de fulminação imediata é bem menor. O corpo confirma que se trata aqui de uma tarefa de aprendizado palpável, substancialmente enraizada no mundo material.

 

Valoração dos sintomas

À primeira vista, a diferença mais marcante em relação à medicina usual é a nossa avaliação positiva dos sintomas. Em vez de aliar-se ao paciente contra seus sintomas, como é costume, trata-se de aliar-se ao mesmo tempo aos sintomas para reconhecer o que falta ao paciente e presenteá-lo tanto com esses sintomas como com as suas carências. O sintoma, quando liberado de sua valoração negativa, pode se transformar em um excelente indicador de caminho e guiar-nos aos temas carenciais, ajudando a que nos tomemos mais saudáveis e íntegros.

Há aqui uma imensa oportunidade de crescimento, já que todas as pessoas apresentam sintomas. Quanto a este último conto, impera uma rara unanimidade em todos os campos da medicina. A medicina acadêmica, com seus métodos de pesquisa cada vez mais refinados, encontra algum desvio da norma em praticamente todos os seres humanos. As estatísticas de saúde, que são na verdade estatísticas de doença, falam uma linguagem igualmente clara. A medicina natural, com seus procedimentos de diagnóstico ainda mais sensíveis, já não encontra mais indivíduos saudáveis. As duas tendências combatem esse estado de coisas, enquanto a religião e o esoterismo o aceitam como sendo uma realidade inevitável. Segundo sua concepção, o ser humano é um universo polar necessariamente não saudável, em busca da unidade perdida que ele deixou no Paraíso quando empreendeu seu caminho de desenvolvimento. É interessante notar que a maneira pela qual a saúde é definida pela OMS e que é adotada pela medicina acadêmica lembra a tradição esotérica. Trata-se de um estado livre de sofrimento físico, espiritual e social. Conseqüentemente, fora dos livros de anatomia e fisiologia não existe neste mundo um único ser humano são.

Tanto se vemos nosso estado geral de doença como um escândalo das políticas de saúde ou como sendo a necessária conseqüência de nosso desvio da Unidade, permanece o fato de que todos temos sintomas e, com isso, a oportunidade de crescer a partir deles. A questão é: queremos continuar tentando o que tem fracassado há milênios, ou seja, eliminá-los do mundo, ou queremos fazer o esforço de reconhecê-los como indicadores de caminho e segui- los?

Deslocamento de sintomas em duas direções

A medicina é absolutamente a única que acredita poder eliminar coisas do mundo. Os químicos e os físicos sabem e provam que somente é possível a transformação de uma manifestação em outra, jamais um desaparecimento sem reposição.

Através do aquecimento de um bloco de gelo, matéria sólida transforma-se em água. Caso continuemos a aquecê-la, o liquido passa para a forma gasosa, transformando-se em vapor. Através do resfriamento, esse processo pode ser revertido, gás transformando-se em líquido que por sua vez se transforma em gelo sólido. Isso é óbvio para nós, e é explicado pela física através da lei da conservação de energia, segundo a qual a soma da energia permanece sempre constante. Nada jamais é realmente aniquilado.

A física ensina ainda que as várias formas de manifestação da água estão ligadas a diferentes estados de vibração de suas moléculas. No estado sólido, os componentes moleculares básicos vibram a uma freqüência relativamente baixa. No âmbito líquido eles estão energeticamente mais estimulados e vibram mais rapidamente. No estado gasoso sua estimulação e conseqüentemente sua freqüência são as mais altas possíveis.

O esoterismo deriva uma interpretação correspondente ao relacionar o sólido ao elemento terra, material, o liquido à água anímica e a forma gasosa ao espiritual, elemento ar. Transposto para o tema em questão, isto significa o seguinte: o corpo, como expressão do mundo material, tem a freqüência de vibração mais baixa, o plano anímico tem uma freqüência média, enquanto o plano mental tem a freqüência mais alta. Para que um tema que se degradou ao plano inferior de freqüência de vibração como sintoma corporal seja elevado ao nível anímico, é preciso injetar-lhe energia. Mais energia ainda é necessária para elevá-lo ao plano mental. Na interpretação dos sintomas da doença, essa energia deve surgir sob a forma de conscientização e de entrega.

No processo contrário, o do surgimento da doença, essa energia foi armazenada. Quando um tema com o qual não queremos lidar se aproxima de nós, economizamos energia ao deixar que ele mergulhe no âmbito anímico e, mais longe ainda, no corpo. Aquilo que não queremos ter na consciência e, ignorando, acreditamos deixar de lado, aterrissa de fato ao lado ou, na terminologia de C. G. Jung, na sombra. A sombra consiste portanto de tudo aquilo que não percebemos e não aceitamos, e que gostaríamos de não ver. Em posição diametralmente oposta está o Ego, que consiste de tudo aquilo que aceitamos em nós e com o qual nos identificamos. Neste sentido, não há nenhum Ego nem nenhum ser humano que se alegre ao reencontrar os temas acumulados na sombra.

Como, entretanto, a sombra é uma parte necessária de nossa totalidade, somente podemos tornar-nos sãos, no sentido de íntegros, através justamente de sua integração. Uma pessoa inteira consiste de ego e sombra. Os dois juntos resultam no “si mesmo", ou self, que representa a pessoa integrada, que realizou a si mesma. A aceitação e a elaboração dos temas da sombra materializados nos sintomas é conseqüentemente um caminho de busca de si mesmo. Sintomas são manifestações da sombra muito acessíveis devido ao fato de terem emergido das profundezas da alma para a superfície do mundo corpóreo, tomando-se assim excepcionais indicadores do caminho da perfeição.

O fenômeno do deslocamento dos sintomas com suas duas direções diferentes ficará mais claro com o exemplo concreto de uma úlcera estomacal. O conceito foi difundido pela medicina e pela psicologia acadêmica quando se reconheceu que sintomas "eliminados" pela terapia voltavam a emergir em outro lugar. Para a medicina acadêmica, fixada no corpo, o deslocamento de sintomas também ocorre, naturalmente, no corpo. Clinicamente, poder-se-ia dizer que os sintomas deslocam-se de órgão para órgão, de paciente para especialista e de especialista para especialista.

Quem procura o médico devido a moléstias nervosas do estômago, geralmente recebe hoje em dia um psicofármaco que produz um assim chamado desligamento psicovegetativo. Isso quer dizer que a ligação entre os nervos vegetativos do estômago e a psique é bloqueada quimicamente, o que então impede que o estômago reaja aos impulsos da psique. A remoção da dor, que não modifica nada na situação da pessoa afetada, tem um efeito temporalmente limitado. O passo seguinte da medicina acadêmica seria o desligamento psicovegetativo por via cirúrgica, onde os ramos correspondentes do nervo vago são seccionados. Caso já seja tarde demais para isso também, amputa-se um ou dois terços do estômago ultrafatigado. O que não existe mais não pode doer, esta é a lógica tão simples quanto míope, já que logo o estômago diminuído dessa maneira começa a apresentar outros problemas digestivos. Todos esses passos visam exclusivamente o corpo. Os sintomas são deslocados para o corporal e, ao mesmo tempo, para o plano horizontal.

A alternativa seria deslocá-los na vertical: do plano corporal para o anímico e, finalmente, para o plano mental. Entretanto, para passar de um plano de baixa freqüência de vibração para outro de freqüência mais alta é necessária uma certa quantidade de energia que o próprio afetado deve prover. Neste caso, o médico pode unicamente desempenhar o papel de catalisador. Com o engajamento consciente é possível ir em busca das razões anímicas da dor de estômago. O que pressiona esse estômago, o que é que se engole e que não é digerível, o que leva a este ato de auto dilaceramento que toda úlcera do estômago representa? É possível, através da pesquisa correspondente, encontrar e elaborar os padrões de consciência que estão por trás dos temas assim sensibilizados. Tal deslocamento de sintomas na vertical tem a vantagem de não permitir que a escalada da sintomática continue, tornando-a, ao contrário, solúvel...

Trechos do livro > A Doença como Linguagem da Alma de Rüdger Dahlke

 

Lena Rodriguez

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