O DIABETES MELLITUS DO TIPO 2 (DM 2) representa cerca de 90 a 95% dos casos de diabetes mellitus diagnosticados. Ele é uma desordem metabólica de etiologia múltipla, caracterizada por hiperglicemia crônica, com distúrbios no metabolismo dos carboidratos, gorduras e proteínas, originários de uma defeituosa secreção e/ou ação da insulina nos tecidos-alvo (1).

Os pacientes portadores de DM 2 apresentam mortalidade três vezes maior do que a população em geral, em grande parte devido ao aumento no risco de mortalidade por doença do aparelho circulatório (2).

O primeiro censo nacional de DM realizado no Brasil, no final da década de oitenta, identificou prevalência nacional de 7,6% e de tolerância diminuída à glicose (pré-diabetes) de 7,8% na população de 30 a 69 anos, resultando em uma prevalência de 15,4% (3). Mais recentemente, estudo regional realizado na cidade de Ribeirão Preto, SP, identificou 12,1% de DM e 7,7% de tolerância diminuída à glicose (pré-diabetes), perfazendo prevalência de 19,8% na faixa etária de 30 a 69 anos e retratando aumento da mesma no país com o passar dos anos (4).

O excesso de peso (sobrepeso e/ou obesidade) está presente em grande parte dos pacientes com DM 2. Na população diabética, em ambos os sexos, um valor de IMC > 25,0 kg/m2 resulta em aumento na probabilidade de acometimento por doenças cardiovasculares (5). Um estudo multicêntrico brasileiro realizado por Gomes e cols. (2006), com indivíduos portadores de DM 2, constataram que 75% da amostra estudada não estavam na faixa de peso ideal, sendo que 33,3% eram obesos (6).

Vários estudos têm sugerido que a variação anatômica da distribuição da gordura corporal é um indicador mais importante de complicações metabólicas do que a massa corporal total (7-10). A obesidade visceral resulta em inúmeras modificações fisiopatológicas, que podem resultar em diferentes graus de resistência à insulina. Dentre elas, podem ser citadas a menor extração de insulina pelo fígado, o aumento na produção hepática de glicose e a diminuição da captação de glicose pelos tecidos periféricos, como o tecido muscular (11). Além da resistência à insulina, a gordura abdominal está relacionada à hipertensão e alterações desfavoráveis no perfil das lipoproteínas plasmáticas, caracterizando o quadro de síndrome metabólica e levando a um aumento no risco de doença cardiovascular (7-10).

À luz destas questões, o presente estudo teve como objetivo avaliar, em pacientes diabéticos do tipo 2 de ambos os sexos, a influência do excesso de peso corporal e da adiposidade central nos parâmetros bioquímicos de controle da doença. [...]

DISCUSSÃO


Nas últimas décadas, tem sido observado incremento na prevalência de DM2. No contexto do processo de transição nutricional, esse incremento tem sido atribuído às modificações do estilo de vida, ao aumento das taxas de sobrepeso e obesidade e ao envelhecimento populacional (15). Apesar de o DM2 ser o tipo de diabetes mais comum, seu diagnóstico precoce não é freqüente, uma vez que o estado hiperglicêmico não implica, necessariamente, em sintomas clínicos perceptíveis (1).

O excesso de peso corporal, assim como a adiposidade visceral em indivíduos diabéticos do tipo 2, tem sido associado a um pior perfil lipídico, a elevados níveis pressóricos e à presença de síndrome metabólica (1,16), o que torna essencial o conhecimento acerca da influência do excesso de peso e sua distribuição no controle do DM2 em pacientes ambulatoriais para um melhor tratamento e controle da doença.

Neste estudo, os pacientes não apresentaram um adequado controle glicêmico, uma vez que médias de glicemia de jejum, em ambos os sexos, encontraram-se acima do ponto de corte de 100 mg/dL estabelecido para um bom controle do diabetes (1). É importante salientar que a permanência de níveis glicêmicos elevados relaciona-se com sérias complicações crônicas microangiopáticas (retinopatia diabética, nefropatia diabética e neuropatia sensitiva distal) e macroangiopáticas (cardiopatia isquêmica, doença vascular periférica e acidente vascular cerebral) de alta prevalência em pacientes diabéticos ambulatoriais (1,17).

A presença da síndrome metabólica é um achado comum nos diabéticos do tipo 2 (18), o que pôde ser verificado pela elevada freqüência de síndrome metabólica encontrada no presente estudo (35,7% nos homens e 68,5% nas mulheres).

Segundo uma meta-análise de estudos de coorte prospectivos, indivíduos diabéticos apresentam risco de doença coronariana significativamente maior do que os saudáveis (19). Entretanto, dentre os diabéticos, ainda existem diferenças no risco cardiovascular entre os sexos. A presença de maior risco de mortalidade por doença cardiovascular em mulheres diabéticas do que em homens diabéticos relatado em outros trabalhos (19-21) também foi identificada na amostra estudada. No que se refere aos parâmetros avaliados, as mulheres apresentaram pior controle metabólico do diabetes, além de maiores freqüências de hipertensão arterial, excesso de peso com adiposidade central e síndrome metabólica, todos esses importantes fatores de risco para o desenvolvimento de complicações cardiovasculares.

O excesso de peso corporal exerce grande influência na sensibilidade à insulina e está diretamente associado ao desenvolvimento do DM2. É consenso que a distribuição anatômica do tecido adiposo está relacionada a alterações indesejáveis no perfil lipídico, dentre outros vários efeitos deletérios da obesidade (22,23).

Diferenças regionais na lipólise induzida pelas catecolaminas e nos efeitos antilipolíticos da insulina têm sido demonstrados. Em ambos os sexos, independentemente do grau de obesidade, os adipócitos localizados nas regiões femurais e glúteas exibem resposta lipolítica mais branda do que os adipócitos viscerais localizados na região abdominal (24).

Um dos mecanismos plausíveis mais propostos para explicar a relação entre adiposidade visceral e resistência à insulina considera a grande sensibilidade à estimulação dos receptores b-adrenérgicos em comparação com os receptores a-adrenérgicos localizados no tecido adiposo visceral (25). Por esse mecanismo, ocorreria maior liberação de ácidos graxos não esterificados na corrente sanguínea a partir dos adipócitos viscerais, maior captação de ácidos graxos pelo fígado, aumento na produção de VLDL, substrato para a gliconeogênese e, como resultado final, um estado de hipertrigliceridemia e hiperglicemia (25,26).

As correlações encontradas entre o excesso de peso e a adiposidade visceral com o perfil lipídico e glicêmico também foram identificadas em um estudo realizado com homens diabéticos, o qual identificou controle glicêmico prejudicado, menores níveis de HDL além de uma freqüência maior de doença vascular periférica, doença cardiovascular isquêmica e hipertensão naqueles com adiposidade central, demonstrando a associação entre o excesso de gordura abdominal, com ou sem a manifestação de obesidade, com um pior controle metabólico do diabetes (27).

Em conclusão, o presente estudo identificou a associação entre inadequados perfis lipídicos e níveis glicêmicos de jejum mais elevados com a presença de excesso de peso e/ou adiposidade central, evidenciando a necessidade de intervenção imediata em pacientes diabéticos do tipo 2 com excesso de peso ou adiposidade central para melhor controle metabólico da doença e menor risco de complicações crônicas futuras. Ressalta-se que especial atenção deva ser destinada aos pacientes diabéticos do sexo feminino de Viçosa, MG, uma vez que as mesmas apresentaram maior freqüência de fatores de risco além de pior controle metabólico da doença, estando em maior risco cardiovascular que os homens. Assim, medidas conservadoras como educação nutricional, acompanhamento dietético e incentivo à prática de atividade física devem ser constantemente implementadas de forma a auxiliar na perda e manutenção de peso corporal em pacientes ambulatoriais portadores de DM 2. [parte do texto fonte]

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